O mercado de motocicletas custom no Brasil atravessa um momento de transição profunda. Os emplacamentos recentes revelam uma retração de 13,7% em relação ao mês anterior, e uma queda de 15,5% comparado ao mesmo período de 2025. Embora o volume total tenha sido de 2.217 unidades em fevereiro de 2026, o cenário esconde uma mudança drástica no DNA do segmento.
1. O Vácuo das Gigantes Japonesas
O declínio das customs tradicionais no Brasil não é apenas uma questão de gosto, mas de oferta. As marcas que pavimentaram o segmento nas décadas de 90 e 2000 hoje focam em outros nichos de alto volume e valor:
- Honda: Sua última grande representante no Brasil foi a lendária Shadow 750, descontinuada por volta de 2014 devido às normas de emissões (PROMOT 4). Desde então, a Honda não trouxe sucessoras diretas. No Brasil, a marca concentrou seus esforços em consolidar e expandir sua presença no segmento Big Trail, investindo pesado em modelos como a Africa Twin CRF 1100L e no recente relançamento da Transalp XL 750, deixando o nicho custom orfão de lançamentos.
- Yamaha: A lendária linha Drag Star 650 e a posterior Midnight Star 950 deixaram saudades. A Yamaha optou por concentrar seus esforços em Big Trails (como a Ténéré 700 e Super Ténéré) e Naked de alta cilindrada, abandonando o cromo pelas linhas de aventura.
- Suzuki: As Boulevard (M800 e M1500) eram sinônimos de musculatura e presença. Hoje, a marca foca na plataforma de 800cc (como a GSX-8S e V-Strom 800), deixando o nicho custom sem atualizações.
2. A Nova Estratégia da Harley-Davidson
Referência absoluta no setor, a Harley-Davidson também precisou se reinventar. A marca abandonou modelos de entrada mais acessíveis (como a linha Sportster 883) para focar em produtos de altíssimo valor agregado e tecnologia (Plataforma Revolution Max, como a Pan America 1250 e Sportster S). Essa elitização, embora mantenha a lucratividade e o prestígio, deixa uma lacuna para o motociclista que busca uma custom média "raiz", mas não pode investir nos valores atuais da marca de Milwaukee.
3. A Substituição pelo "Retrô Utilitário"
O espaço deixado pelas japonesas foi ocupado por quem entendeu que o "clássico" precisa ser prático. A Royal Enfield domina o setor com mais de 60% de participação, emplacando modelos como a Hunter 350, Super Meteor 650 e Meteor 350. O público não abandonou o estilo, mas migrou para motos mais leves e ágeis para o dia a dia.
4. Tecnologia vs. Nostalgia
Enquanto o mercado geral caiu, a Zontes S350 cresceu 10,3% no mês. Isso sinaliza que o motociclista de 2026 aceita designs futuristas e tecnologia embarcada, distanciando-se do purismo absoluto. A estreia da Royal Enfield Bear 650 no Top 10 reforça que o mercado busca novidades acessíveis em vez dos ícones inalcançáveis do passado.
Conclusão: Novo Começo
As custom não estão morrendo, elas estão perdendo o peso. A liberdade agora rima com versatilidade. O desafio das marcas tradicionais é entender que o espírito estradeiro ainda existe, mas ele precisa de agilidade para sobreviver às cidades modernas e às novas exigências do mercado.
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