Rodar de moto é encarar o imprevisto com o peito aberto. Quando planejamos uma viagem sobre duas rodas, traçamos rotas, calculamos distâncias e prevemos paradas. Mas a verdadeira essência do motociclismo está na capacidade de se adaptar quando os planos originais fogem do controle — transformando perregues em histórias inesquecíveis.
Foram 2.746 km percorridos a bordo de duas máquinas prontas para encarar qualquer desafio: uma Honda CB 500X (2018/2019) pilotada por Fabiano (Bill) e uma BMW S 1000 XR (2015) sob o comando de Renato. Confira a seguir como foram os 5 dias dessa jornada.
1º Dia: De Colina/SP a Guaíra/PR (855 km)
A aventura começou cedo. Saímos de Colina/SP às 6h30 da manhã rumo a Guaíra/PR. Pela frente, encaramos cerca de 855 km cruzando São José do Rio Preto, Presidente Prudente, Cianorte e diversas outras cidades do interior paulista e paranaense. Neste trecho, a paisagem do Paraná se resumiu basicamente à força da agricultura e a algumas áreas de pecuária.
A viagem rodou de forma muito agradável, ritmada por paradas rápidas para abastecer e tomar um café, além de uma pausa mais longa e merecida para o almoço.
Na reta final do dia, o ritmo desacelerou: nos deparamos com diversos trechos em obras no esquema pare/siga e ainda encaramos uma travessia de balsa já na chegada a Guaíra, por volta das 18h30. Instalados em um hotel bem localizado no centro da cidade, próximo a bares e restaurantes, encerramos a noite com um bom jantar e um descanso revigorante.
2º Dia: Da Burocracia à Empatia — A Travessia Paraguaia
Após o café da manhã no hotel, aceleramos rumo à fronteira. Atravessamos a Ponte Ayrton Senna — que conecta o Paraná ao Mato Grosso do Sul — e cruzamos para o Paraguai. Por ser domingo, o posto de imigração local estava fechado, nos obrigando a ir até o posto imigratório dentro de Salto del Guairá.
Antes do trâmite, fizemos uma parada no famoso Shopping China para conhecer a estrutura e conferir os preços. Mas ficou só no "olhômetro": viagem de moto exige desprendimento e espaço é artigo de luxo no baú.
Ao chegarmos ao segundo posto imigratório, veio o balde de água fria. O agente de plantão perguntou nossa origem e, ao saber que vínhamos de São Paulo, solicitou o Certificado Internacional de Vacinação contra a Febre Amarela, apresentando uma norma paraguaia rígida para viajantes vindos de determinados estados brasileiros.
Fica a dica de ouro: Mesmo com passaporte, RG atualizado, documento da moto em dia e a Carta Verde em mãos, a vacina era indispensável.
A decepção foi imediata. Sem sinal de celular (o chip brasileiro não pegava), buscamos um posto com Wi-Fi para tentar emitir o documento via Gov.br, mas descobrimos que o certificado exige uma vacinação registrada no sistema com antecedência — ali, no meio da estrada, não haveria solução rápida.
A virada de chave
Com a ida a Assunção aparentemente cancelada, decidimos que tentaríamos ir ao menos até o Monumento Biker nº 30, em Katueté, a cerca de 70 km da fronteira. De volta ao posto imigratório para consultar se haveria fiscalização naquele trecho curto, abrimos o jogo com o funcionário e explicamos nossa frustração por ter que abortar a viagem dos sonhos até a capital.
Ele ouviu com atenção, perguntou o que faríamos em Assunção e explicamos nosso roteiro de rodar, pernoitar e descer para Foz do Iguaçu. O agente pegou nossos documentos, analisou o passaporte, a Carta Verde e o documento das motos. Em um gesto de pura empatia sobre duas rodas, ele disse:
— "Buen viaje, amigos."
E carimbou a nossa entrada (o famoso permesso). O carimbo estalou no passaporte e a alegria voltou no ato. Éramos oficiais!
Ventania, chuva e a noite tensa
Seguimos radiantes até o Monumento Biker nº 30 em Katueté, localizado em um posto com excelente estrutura de restaurante, cafeteria e loja de souvenirs. Registramos o momento, almoçamos nas imediações e pegamos a estrada rumo a Assunção.
Faltando cerca de 150 km para a capital, o tempo fechou: uma tempestade violenta com ventos fortes nos obrigou a buscar abrigo na varanda de uma construção abandonada à beira da pista. Esperamos o temporal aliviar e, com a noite caindo, encontramos um bar/hotel de estrada para pernoitar.
Fechamos o quarto, tomamos algumas cervejas e jantamos um lanche. Mas o descanso virou teste de paciência: o local era precário, os frequentadores começaram a chegar e o som de um funk alto estourou até as 4h20 da manhã. Noite mal dormida e clima tenso na conta — coisas que só quem vive a estrada de verdade entende e aceita como parte do pacote.
3º Dia: Assunção, Empanadas e o Regresso por Foz do Iguaçu
Aceleramos cedinho para deixar a noite ruim para trás. Paramos em um posto de estrada para tomar café da manhã e saborear as tradicionais empanadas paraguaias — simplesmente espetaculares.
No final da manhã, entramos em Assunção. Fizemos aquele rolê clássico pela cidade, percorremos a orla, visitamos a Catedral, registramos fotos no letreiro com o nome da cidade e cruzamos a imponente ponte de acesso à Argentina. Por lá, paramos em um posto que funciona como ponto de encontro da comunidade motociclista local para tomar um café e trocar ideias.
Durante a abordagem da Policía Nacional no trajeto, fomos parados para verificação. Os policiais checaram os documentos rapidamente e, com grande cordialidade, nos liberaram:
— "¡Documentación en regla! Tengan un excelente viaje por nuestro país."
Como era domingo e nossos dias estavam contados, ajustamos a rota e decidimos seguir direto para Foz do Iguaçu. A mudança de cenário nas estradas paraguaias foi impressionante:
Trecho Guaíra – Assunção: Pista simples, asfalto bom, passando por regiões com visível simplicidade e pobreza rural.
Trecho Assunção – Foz do Iguaçu: Pista inteiramente duplicada, construções modernas, grandes silos e armazéns de grãos refletindo a força do agronegócio.
Detalhe importante: Em ambos os trechos, motocicletas são isentas de pedágio em todas as praças.
Chegamos ao final da tarde na fronteira e vivenciamos mais uma gafe típica de marinheiros de primeira viagem: cruzamos a Ponte da Amizade e entramos no Brasil sem dar baixa na imigração. Tivemos que fazer o retorno pela ponte até o lado paraguaio para carimbar a saída no guichê correto.
Com a burocracia finalmente encerrada, nos hospedamos em Foz do Iguaçu e fomos a pé até um restaurante próximo para um jantar calmo.
4º Dia: Maravilhas da Natureza e o Carimbo nº 32
O dia começou cedo com o café da manhã no hotel. O destino do dia era o Parque Nacional do Iguaçu, cujos ingressos já tínhamos comprado online no dia anterior.
Dicas práticas para as Cataratas:
Estacionamos as motos e deixamos capacetes e jaquetas no guarda-volumes do parque.
Compramos água e capas de chuva com os ambulantes do lado de fora — uma economia inteligente, pois a estrutura interna cobra bem mais caro.
Pegamos o transfer interno até o início das passarelas.
Optamos pelo ingresso tradicional e fizemos a trilha principal. Estar diante das Cataratas do Iguaçu é uma experiência inesquecível. A grandiosidade da força da água e a beleza da natureza impressionam qualquer um.
Saindo do passeio (que durou cerca de 2 horas), fomos almoçar no Restaurante Paraíso, indicado por um panfleteiro local. A indicação foi certeira: buffet livre com comida caseira excelente por R$ 54,00 por pessoa.
À tarde, fomos até o Marco das Três Fronteiras, mas o local não abre às segundas-feiras. Ficamos com os registros rápidos junto às bandeiras e seguimos para o centro de Foz do Iguaçu atrás do Monumento Biker nº 32.
Mesmo com o estabelecimento fechado, o proprietário estava no local e nos atendeu com extrema gentileza: cedeu o banheiro e carimbou nossos passaportes de viagem. O espaço é fantástico e totalmente tematizado para a cultura motociclista.
Com as metas do dia cumpridas, tocamos viagem e, no início da noite, aportamos em Ubiratã/PR. Nos hospedamos no Hotel São Francisco, saímos para comer um sanduíche e caímos no sono.
5º Dia: Rumo a Casa (790 km)
Às 7h30 da manhã, ligamos os motores em Ubiratã/PR para o último pernaço da viagem: 790 km direto até Colina/SP.
Mantivemos uma tocada constante, parando apenas para abastecer, tomar um café, esticar as pernas e almoçar. Chegamos ao nosso destino com o sentimento de dever cumprido, a bagagem cheia de histórias para contar e a certeza de que a estrada sempre recompensa quem tem coragem de rodar.
🏍️ Ficha Técnica da Viagem
Distância total percorrida: 2.746 km
Período: 5 dias
Máquinas na estrada:
Honda CB 500X 2018/2019 (Fabiano-Bill)
BMW S 1000 XR 2015 (Renato)
Gastos Totais Consolidados (individual): R$ 2.154,07
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